13.6.10

2010- 13/06 - Seqüestro do Embaixador Alemão liberta 40 presos políticos em 1970

Enquanto o General Médici capitalizava a vitória do tricampeonato para seu governo, mérito único e exclusivo de vinte e duas feras muito bem treinadas e definidas pelo João “o sem medo” - o João Alves Jobim Saldanha, comunista de carteirinha como costumava ser chamado, - milhares de brasileiros eram assassinados, torturados, mutilados, estuprados nas prisões. Misto de dor e alegria. Afinal, de que vive um povo sofrido, faminto, carente de escolas, de vida, se não dessas gotas de felicidade doadas generosamente por seu próprio povo? Os meninos do futebol. Estes mesmos, saídos dos guetos, das favelas, da fome, dos maus-tratos, da falta de futuro. Saldanha tinha esta consciência. Por isso, desafiava generais. Por isso, era irascível. Ele, melhor que ninguém, conhecia a verdade. O futebol é o presente que o povo se dá. É o seu momento de liberdade. É a demonstração do que somos capazes. Vencer...
Os meninos prodígios do futebol não ditam as leis que regem o país, não comandam exércitos, não definem regras econômicas. Driblam a bola ao caminho do gol... A nós, nos dão aqueles pequenos instantes de extrema felicidade, tal e qual a Portela quando desfila seu azul, ou a Mangueira quando pinta de verde e rosa o verão abaixo do equador. Assim é lindo, forte, vitorioso e triste meu país.
Dormia o Brasil, acalentado com a vitória da Copa, quando um grupo de jovens, entre comandados por Carlos Lamarca, seqüestrava, na Rua Cândido Mendes, o embaixador alemão. E exigia em troca a liberdade de 40 presos políticos. Dija e eu recebemos a noticia enlouquecidamente felizes.
- Quem estaria na lista? - argüia Damaris.
Não sabíamos o que fazer. Ligávamos a cada segundo para a rádio “Habana Cuba” em busca de novidades. Horas a fio de tensão, angústia, alegria sempre. Quaisquer que fossem os escolhidos, era mais uma vitória nossa.
O Brasil negociava com a Alemanha a usina de Angra. Os alemães representam um lado muito forte da economia mundial, o governo brasileiro não vai ariscar a vida do seu representante oficial. Esta sacada foi perfeita.

O telefone vibrou com nossos corações: Fausto, Dulce Maia, Lizst, Gabeira, Minc, Maninho... quarenta ao todo. Quarenta companheiros livres.
Dija me abraçou, enrolando-nos no fio, pulando, rindo...
- Sim, Ibrahim... Oba, oba... – falava aos risos, enquanto as lágrimas emudeciam nossas almas, lavavam a dor da espera.

- A tia está na lista, e com as crianças – entrou Ibra feliz. - Quarenta, gente!
- Deixa-me ver - puxava Diógenes o papel mais desejado, trazido pelo amado proleta.
- Também quero – subia por cima dos dois, tentando ver os nomes.
- Vão para a Argélia. O Japa vai para lá encontrá-los – Ibra, cheio de novas, tagarelava sem deixar que a gente argumentasse. - Acho que amanhã.
Despertei Marcello e Eduardo para contar a novidade. A felicidade era tanta que não podia esperar o amanhecer.
- Cell e Edu, o papai saiu da cadeia. Foi trocado pelo embaixador alemão. Qualquer dia desses, a gente o vê outra vez.
- Saiu da cadeia. Eu não disse que o tio Carlos ia tirar ele de lá?
Levantou da cama, retirou do armário a velha folha de papel amassado e, como em um conto de fadas, explicava ao Edu como havia sido o regaste. “Então... Ele entrou por aqui, virou para lá...” Saí de mansinho, caminhei até a varanda enxugando as lágrimas. Fazia muitos anos... Muitos... Nem sei quantos, que não chorava de felicidade.

Cell e Edu corriam pela playita, saltitando entre as pedras, molhando os pés, rindo, banhados de alegria. Desde aquela noite, Marcello vivia sorrindo. Uma hora ou outra, seu pai entraria pela porta a dentro.
- Nem todos virão. - confirmou Onofre.
- Fausto, com certeza, escolheria vir a Cuba. Afinal, estamos aqui, -comentei.
Falar ao telefone, inútil pensar. Se as comunicações eram difíceis em outros lugares do mundo, avalia Cuba, bloqueada pelos países coniventes com a política americana. Tentar telefonar podia durar dias. A comunicação com a Ilha era, na maioria das ocasiões, impossível. Ou um amigo levava um recado, uma carta, ou contato, nem em terceiro grau.
No dia do meu aniversário, chegaram Liszt e Gabeira. Vieram visitar-me. Contar as novas. Uma noite feliz como poucas. De Porto Alegre a Miramar. Quem diria? Não é que a vida é feita mesmo de encontros e desencontros? Liszt era um encontrado dentre tantos desencontros. Saudei a vida!
- Dentro de alguns dias chegará um grupo. - contou Liszt. - Fausto... Não sei se está nesta leva. A Tia vem primeiro. Cheia de crianças... E essas coisas mais. Eu fico por aqui até decidir com a Organização. O Gabeira regressa logo à Europa. Temos que nos refazer da cadeia. Foi uma barra. Mas isto é assunto para outro dia.
Abraçamos felizes.
- O Pedrinho está no grupo. – enumerou.
- Pedrinho? Qual o nome dele?
- Edmar.
- Impossível! Edmar... Não combina com ele.
- Assim é. Liszt combina com Rodolfo?
- Com barba sim... - brinquei.
Da prisão, dos companheiros que ficaram, da situação dura e caótica, aos amores, o papo estendeu noite adentro.
O dia amanheceu.Pela o primeira vez comemoraríamos um 26 de julho de terras cubanas a espera da chegada dos companheiros presos politicos trocados eplo Embaixador da Alemanha no Rio de Janeiro dia 11/06/1970.
Almir Dutton Ferreira, Altair Luchesi Campos, Carlos Minc Baumfeld, Darcy Rodrigues, Dulce de Souza Maia, Edmauro Göpfert, Eudaldo Gomes da Silva, Flávio Roberto de Souza, Ieda dos Reis Chaves, José Araújo de Nóbrega, José Lavecchia, José Ronaldo Tavares de Lira e Silva, Ladislau Dowbor, Liszt Benjamin Vieira, Maria do Carmo Brito, Melcides Porcino da Costa, Oswaldo Antônio dos Santos, Oswaldo Soares, Pedro Lobo de Oliveira e Tercina Dias de Oliveira, Aderval Alves Coqueiro, Ângelo Pezzuti da Silva, Apolônio de Carvalho, Carlos Eduardo Fayal de Lira, Carlos Eduardo Pires Fleury, Cid de Queiroz Benjamim, Daniel Aarão Reis, Domingos Fernandes, Fausto Machado Freire, Fernando Paulo Nagle Gabeira, Jeová Assis Gomes, Joaquim Pires Cerveira, Jorge Raimundo Nahas, Marco Antônio Azevedo Meyer, Maria José Carvalho Nahas, Maurício Vieira Paiva, Murilo Pinto da Silva, Ronaldo Dutra Machado, Tânia Rodrigues Fernandes , Vera Sílvia Araújo Magalhães, Samuel Dias de Oliveira, Luiz Carlos Marques do Nascimento, Zuleide Aparecida do Nascimento e Ernesto Carlos do Nascimento.

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