18.12.11

Entre o Mar e o Cell

Madrugada adentro quando me despertei com dores fortes no baixo ventre. Na calcinha, uma enorme mancha de sangue. Assustada voltei ao quarto chamei pelo Fausto. Acho que estou tendo algo. Às 7:00 horas dava entrada no hospital. Um exame dolorido revelou a suspeita. Estamos em trabalho de parto, mas nada para as próximas horas. Volte para casa e regresse somente quando as dores forem menos espaçadas.
- Não disse. Nada de alarme. John se casa hoje, e não seremos nós a estragar lhe a festa.
- Mais dói.
- Tudo bem. Mas, não é para hoje. Vá ao cabelereiro. Estreia o vestido lindíssimo e, vamos nos divertir.
Passei a tarde no cabelereiro. Suava, e suava a cada contração. Acho que não vou aguentar. Ramiro a dor está insuportável, pare de colocar grampos no meu cabelo. Não segura mesmo.
- Vou deixar você linda – a grávida mais bonita que a noiva.
- È assim mesmo opinava as senhoras de uma Laranjeiras super elegante. Marinheira de primeira viagem. Sempre a mesma história. Tranquila. Na hora dele ninguém segura.
- Ai, ai aguentar esta lenga lenga com estas dores.
- Já terminei. Diverte o máximo que amanhã teremos bebê para começar a vida.Ramiro beijou-me com a alegria de sempre.
- Fausto quero ir para o hospital. Dói demais. Não aguento.
-Impossível. Você cismou que esta criança vai nascer hoje.
- Quero ir. Tudo bem. Vamos lá, mas volto para o casamento. Afinal, ele é meu irmão.
Entre grampos, um cabelo entupido de laquê o médico foi desvencilhando aos pouquinhos meus cabelos.
- Nunca pensei que as mulheres usassem tantos grampos desta forma – brincou tirando quilos dos famosos prendedores de um cabelo exageradamente lixo e ensopado de suor.
Sala de pré parto as dores substituíam as dores. Uma senhora cansada de guerra nove filhos me encorajava. Daqui a pouco, você vai estar sorridente com seu bebê nos braços. Coragem. Dói mas passa.
- Será que meu pai está ai.
Tem um senhor no jardim. Fumando andando de um alado para o outro – afirmou a enfermeira. Deve ser ele - completou.
Menos mal pensei. Aqui sozinha, com está dor que me leva a loucura.
Não adianta. Esperamos demais o bebe é muito grande. Nenhuma dilatação, pressão alta. Enfermeira remova a paciente para a sala de parto.
- Vão fazer Cesária.
- Que Cesária. Todas a pacientes do Dr. Botelho chegam e logo querem Cesária. Parto normal.
- Mas ele è grande – argumentei quase sem voz.
- Fique tranquila. Tudo vai sair bem.
- Momentos depois, ainda anestesiada ouvi a uma voz que dizia: Marilia acorde. Terminamos. Dr. Botelho tinha razão. Quatro quilos e umas gramas, nesta menina não ia sair por nada.
- È Marcello.
- Hum hummmmm! È Marcello – resmungou o médico.
Silêncio total. Ninguém ao lado. Nem filho, nem marido, nem pai, somente a solidão e uma dor fininha no ventre.
Assim, passaram quarenta e cinco anos, entre um sábado de 17 de dezembro de 1966 e 2010.
Marcello é um diamante bruto. Sempre tem mais o que burilar. Ora terno, ora calado, ora sorridente, ora zangado. Festeiro, inteligente, estudioso, culto. Poeta, desenhista, criador, escritor. Amante da vida e amado. Quase completo. Hoje, ele tem Pablo um menino lindo. Igualzinho a ele. Nos gestos, no pé, na alegria, na travessura.
Passamos a vida festejando os cumpleaños. Até mesmo na clandestinidade não faltou o bolinho, e uma metralhadora trazido pelo Liszt, no parque Farroupilha – Porto Alegre em plena ditadura, quase nos últimos dias de deixar o país por dez longos anos. Como demoram passar se não pisamos a terra natal.
Quarenta cinco anos, depois não teve pinhanta, nem mil folhas, nem música, nem um entra e sai de amigos grandes e pequenos. Pablo, quase dormido chegou com um bolo de chocolate e uma velinha. Queimou o dedinho na chama. Chorou, reclamou, esqueceu da dor. Sem entender nada cantou parabéns. Guardamos o bolo.
Quarta-feira, após uma reunião de trabalho no Paço Imperial comeu um croissant e pegou uma grave infecção. Ironia da vida. Claro que não. Fatalidade tampouco.
Cidade abandonada com certeza. Ano que vem tem eleições. Claro que Eduardo Paes será reeleito. A cidade está cheia de tapumes e esgotos vazando por todos os lados. Tem a máquina do governo na mão e milhões de dólares para gastar. Tira os tapumes da rua, varre e limpa a cidade. Faz alguns discursos e governa mais quatro anos até que outro ocupe seu posto. Ai, o povo se dá conta de que viveu oito anos entre esgotos, epidemias de dengue, hospitais sem leitos, médicos incompetentes e relapsos, educação falida e troca o de turno por outro mais velhaco que o anterior. E, você provavelmente vai ter que passar pela mesma situação que a minha: não comemorar a altura os quarenta e cinco anos do filho amado, querido, tão esperado, porque a falta de vigilância aos bares, hotéis, restaurantes.
Rio de Janeiro, 17 de dezembro de 2011

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