8.1.12

Domingueira poetica

A DISTÂNCIA
- Thales Paradela

- Falta muito?
- Tá chegando...
- Ainda?
- Tá chegando...
- De novo?
- Sempre!

Pela janela do trem, o tempo passa de revés. Relatividade tem de ter sido deduzida num trem de beira do Rio Doce. Muito saculejado na cabeça dá nisso.

- Ainda tá longe?
- Um dia chega...
- É antes ou depois daquele morro?
- É antes do que eu morro...

Trem segue pra lá, rio desce pra cá, tempo corre pronde? E o guardado do tempo, escorre? Cai de lado? Em que margem do rio tenho que estar pra pescar lembrança? Mas se eu trocar de margem, fisgo lembrança de amanhã? O Doce é marron, chuva já foi mas com barro foi cotejando no beiral da encosta, chegou marron no leito. Chuva torna a ser, clara.
Onde fica o bairro recolhido?

- De novo esta curva?
- É outra...
- Como que você sabe se vira igual?
- Não sei, mas a torneira é outra?
- Parece que não sai do lugar, sai?
- Só pra poder voltar...

Dormente de trem parece dormido, mas trilho eu asseguro que é sujeito direito, reto. Leva sempre. Mas trilho tem final? Eles se juntam lá nesse? Tem uns que leva e traz, é só trocar o lado do foguista. Que de eu ir, passei por uma mangueira carregada, aguei. Foi chegar e procurar um pé. Em que pé eu subi? Não é a mesma manga do caminho?
Esse quem plantou? Ou é a mesma, que o tempo plantou. Sei uns que comeram, mas num vi quem plantou. Os de depois terão o de comer?

- Falta muito?
- Só um tempo...
- Tempo nunca é só! Falta.
- Acho até que o tempo é só...
- E chega onde?
- Tá vendo aquele abraço?
- Daqui parece pequeno...
- Pois é ali que chega.
- E qual a distância?
- Um metro depois da saudade!

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