19.8.12

MUITO PRAZER 3o. capitulo


Até onde pode chegar minhas lembranças  me atirava de supetão, aconchegava  entre seus braços disputando com  a irmã mais  nova  todos  os carinhos. Caia aos prantos quando o via engravatado  de saída para o trabalho. Pegava  qualquer coisa a minha pela frente  corria - lhe das mãos  na  tentativa de o tempo conivente com meus anseios permitisse descobrir o misterioso escritório. Não sabia onde, nem como. Somente  que a noite muitas vezes  batia à porta, antes que seus passos fossem ouvidos cruzando o corredor.
Não raro um chiado tomava conta do meu peito  perdendo  horas e dias de diversão. Se não eram de chuva ou nublados, as compressas quentes eram substituídas por brincadeiras como  aquelas cócegas de matar qualquer um  de tantos risos. Eram os instantes em que o mundo borrifava  ternura caminhando de mãos dadas com a felicidade.  Eu era feliz.  Erámos felizes.  
Velozes como raios as estações dançavam em redor do sol  derramando um colorido de miosótis, gerânios, flamboyants nas ruas, praças, nas águas do rio que corria em direção ao mar. Certo que a sequencia  ente elas me era desconhecido.  Em algumas desnudavam  as árvores, de repente sapatinhos de lã, casacos nos finais das tardes tornar-se obrigatórios, por vezes o pátio apinhava-se de mangas. Alegria mesmo era quando o sol  reinava absoluto por todas as partes. Noite chegava tardia salpicada de estrelas.  Bem antes que elas iluminassem o céu ainda num colorido de  amarelos que iam até um vermelho sangue, nos confundíamos entre  afagos, pique –esconde, historietas. Nestes dias, metíamos no carro rumo à casa da vovó, onde tudo podia estar  aguardando nossa chegada. Desde Biano, o moleque negrinho como carvão, querido como ninguém, encarregado de cuidar-nos em travessuras no pomar ou na fascinante horta verdinha adornadas de pintinhas vermelhas –  saborosos tomatinhos , ou fosse nas escapadas a igreja hábito que Doña Lidia não abria mão. Natal  todos os sapatinhos na janela, acordavam  abarrotados de presentes. Ano novo dormíamos cedo, mas o cheiro de comida impregnava tudo. Tinha medo da folia de Reis, corria assustada e  rezava e rezava – nunca ouvida diga-se de passagem que aquele escritório lá na cidade precisasse  de sua presença. Por vezes, para não contrariar  fugíamos  destes folguedos tão impressionantes a mim.
Aquele ano, soou  feio. Entre a escola, deveres e saberes  tive mais asma que nos anos anteriores. Sua falta se fazia sentir  sem maiores explicações, apenas um certo nervosismo pairando no ar. Chovia muito, os flamboyants não floresceram tanto, o céu escondeu punhados de estrelas, vovó não fez os doces costumeiros, biano  resmungava pelos cantos.  Faltava para o natal umas quantas semanas, um novo bebe chegaria antes ou depois– depende da lua – ouvia a miúde – quando ele levou-me para a casa de Angustura onde  a alegria pousara para descansar de sua larga viagem pelo mundo. Na cadeira de balanço, quentinha embaixo do cobertor amarelo pediu-me com  a doçura que lhe era peculiar. Seja obediente, estudiosa, respeite as pessoas sempre. Eu amo voc. Beijou-me na testa enquanto ajeitava  a coberta. Esta crise já vai passar. Eu volto antes  das festas.  Não sei quantos séculos passaram, se anos apenas, ou quisas dias. Não sei se foram as chuvas de março, ou os buracos negros, se a nanotecnologia, se os filhos que chegaram anos mais tarde, se Pablo que ouve Lenine cantando ¨ Candieiro Encantado¨ , empurrando para lá e para cá este Mac air, se  tenho que levantar-me  para tentar tirar manchas verdes das mãozinhas pequenas que acariciam meu rosto. Não sei se a vida, ou talvez todos os sonhos acumulados  vividos ou não preciso de um dia especifico para sentir falta do pai que fez toda a diferença. Hoje, o reconheci em uma foto postada no face  deu uma saudade danada.

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