26.3.14

NESTA TERRA, NESTA INSTANTE - 10 parte



Jorge Chavez  - Lima. Perú. 2h10m.

Lima, a de Vallejo e Chabuca Grande, qual gema preciosa incrustada  na história, nos recebeu  cheia de surpresas. Hoje não chove em Lima, e não tenho vontade de morrer...
contrariei Vallejo.

O avião parqueou engasgado. Aos  poucos, tensos e famintos, os passageiros despertavam para a realidade.
- Este vôo iria até Porto Alegre. - esclarecia novamente a aeromoça, preocupada com as consequências da falta de água e comida nas próximas horas.
Ainda era manhã mas o calor se tornava insuportável. Duas horas haviam passado e as autoridades peruanas não liberavam a manutenção do avião, alegando não dispor de equipamento adequado.
-          Neste aeroporto, não dispomos de condições técnicas para abastecer o avião. O birreator  Caravelle é um modelo obsoleto. Não temos a bomba para descomprimir o combustível e nem aparelhagem elétrica para ligar as turbinas.- explicou o comandante. O equipamento que faz este avião sair do chão não existe neste aeroporto. Contudo, a Cruzeiro está disposta a colocar uma nova aeronave para vocês chegarem ao seu destino.
-  Não sairemos daqui. - devolveu Andrada.
- Queremos sair daqui!!!- gritou uma senhora.  Louca, desvairada, inconseqüente, desumana! – me fuzilava com o olhar. Como pode expor assim seus filhos, sua maluca!?

Todos assistiam preocupados àquela explosão. O terror vazava pelos olhos espantados dos passageiros.
- Calma! Calma,  por favor. - pedia desesperado o marido.
André foi até o assento da passageira e a acalmou, alegando o óbvio.
- Não vamos retroceder. Nada acontecerá, se ficarem sossegados. É apenas uma questão de tempo.

Tempo. Tempo de amar. Tempo de ser feliz. Tempo de liberdade. Tempo de guerra, para encontrar a paz. Tempo de esperar.

- Ninguém pode deixar seu lugar. Para ir ao banheiro, somente acompanhado de um de nós. - determinou André.

Aproximava-se o meio dia, o sol abrasante  queimava a aeronave, quando apareceram os primeiros simpatizantes que foram se aglomerando na varanda do aeroporto.
Faixas e mais faixas com palavras de ordem revolucionárias, coloriam a tensão e  passavam  a solidariedade tão necessária em momentos difíceis.

-          As turbinas não ligam; sem as baterias apropriadas  os motores não voltarão a funcionar. As empresas peruanas não usam Caravelles. Este aeroporto não está aparelhado  para atender a este tipo de avião. Só temos uma solução para o impasse: trocar de avião. A Cruzeiro do Sul  vai mandar outro.- de novo a fala segura do comandante.

Ouvimos perplexos a sua voz serena. Sem dúvida, um homem experiente, acostumado às peripécias que nos prega a vida, como estar  sequestrado em pleno Andes, responsável por tantas pessoas, negociando para todos e, para si próprio, a liberdade.
- Precisamos conversar.- pediu André.

Até aquele momento, apesar do desvio de rota, nada parecia tão complicado. Alguns inconvenientes passíveis de solução. A presença de jornalistas na pista do aeroporto, apinhado de gente, dava-nos uma certa segurança. 
- Não sairemos deste avião. Custe o que custar.- reafirmou Andrada. Morreremos, se preciso for. Estamos dispostos a morrer. De nada adianta tentar nos persuadir. Compreendeu, comandante?

Amaral afastou-se devagar, olhando-me serenamente.
- Tudo bem, vou passar esta informação às autoridades brasileiras e à companhia aérea.
Através do rádio, comunicou à torre nossa decisão. Regressou mais animado:
- Desejo conversar com a mãe das crianças.
-  Para quê?
- Não sairemos daqui vivos. - confessou-me,  sem responder à pergunta. Mais cedo ou mais tarde, vocês vão ter que sair.
- Sair?
-          Sair. Tirados à força. Sem água. Sem comida. É uma questão de tempo. Estas crianças vão morrer de fome. Vocês não vão aguentar.
Tentei interpelá-lo.
-           Ouça-me, pediu. O presidente Velasco Alvarado está disposto a oferecer-lhe asilo político. O próprio ministro virá até o avião,  acompanhado de jornalistas, para garantir sua integridade física. Garantem que nada lhes sucederá. Não interessa  ao governo nenhum confronto em solo peruano. São democratas e reconhecidos pelo povo.

Meus companheiros entreolharam- se aflitos. Que decisão tomaria, agora que a negociação mudara  tão repentinamente de mãos?

Eu, que fora posta à margem de tantas decisões... das mais simples às mais secretas, que tivera meus filhos afastados do meu convívio, para garantirem o sequestro... Neste instante, o destino de todos, nas minhas mãos: passageiros, tripulantes, companheiros, meus próprios filhos... sim! Meus filhos, acima de todos. Olhei para os dois. Tão lindos, tão carentes de infância, de juventude e de maturidade. Tão pequeninos! Por eles, por todas as crianças do meu triste país, pelos que têm o direito de conhecer o mar, pelo direito que todos têm de ser felizes, como dizia Martí. Por todos eles.

- Deixe-me a sós com meus companheiros, por favor. - pedi.
 André ía falar. Cortei.
-          Eu não vou deixá-los. Não agora. Antes que vocês aparecessem na minha vida, eu já cogitava em sair do Brasil. Um dia, conversaremos sobre este momento. Conversaremos. Chamem o comandante, por favor...
- Eu.
- Eu vou ficar! Agradeça ao Governo Peruano a delicadeza do gesto. Agradeça aos jornalistas a solidariedade. Diga ao governo brasileiro que não vou descer deste avião.
- Não quer pensar um pouco mais?- pediu.
-          Não. Não preciso pensar, para decidir o que há muito está decidido. Não sairei deste avião.
Voltou três vezes, tentando dissuadir-me:
- Mas se a senhora...
-          Por favor, não insista.

Coçou a cabeça pensativo, preocupado. Afinal, sua vida também estava em jogo. Visivelmente nervoso, completou:
- Se você não vai mesmo sair deste avião, aviso que na parte traseira há uma porta que abre. Vocês  devem ficar de olho nela. Seja o que deus quiser. Vou transmitir sua decisão ao representante do ministro de Relações Exteriores.
-          Tudo bem. - respondi secamente.
Todos me olhavam. Uns, tranquilos diante do inevitável; outros, resignados, exceto aquela senhora.

Que sabia aquela mulher de sofrimento, que sabia das torturas e torturados, que sabia de liberdade, de pão, de sede e frio? Do povo massacrado, sofrido, sem esperança?  Dos nossos sonhos de liberdade? Da alegria, ao ver as crianças de rua em escolas, de homens e mulheres não violentados, trabalhando com dignidade? Do amor à pátria? Um dia, talvez saberia. Eu não estava expondo meus filhos. Estava impedindo que eles fossem torturados em nome da ordem e do progresso.
Sairíamos ilesos, fisicamente; tinha essa certeza, acontecesse o que acontecesse. Perder nunca fez parte do no meu propósito de vida. 

-          Abra a porta dos fundos, imediatamente! Um de nós vai ficar lá de plantão... André!

O cheiro insuportável do banheiro impregnava toda a nave. Doze horas haviam se passado, desde que  saíramos de Antofogasta. A água do banheiro havia esgotado. Todo e qualquer tipo de alimentação nos faltava. Estávamos famintos e sedentos. Setenta e duas horas sem dormir faziam uma grande diferença, bem como a fome e a sede. Todo um ano de clandestinidade servira para o aprendizado de ficar alerta por muito mais tempo que o habitual. Sabia que podemos viver, sem perder peso, durante trinta dias, somente ingerindo leite. Para as crianças, tudo bem. Havia leite suficiente para uma semana. Mas, e água? Em menos de 24 horas acabaria.
Este sequestro tinha hora e dia marcados para terminar. Meu tempo de espera e negociação estavam cronometrados em relação direta à quantidade de leite e de água para os meninos.

Fazia mais de duas horas que o co-piloto não aparecia. Por que não regressa com notícias?
- Os jornalistas estão muito perto. Devemos ter muito cuidado. Entre eles pode haver infiltrados. - comentou Andrada bastante preocupado.
- Querem tirar fotos das crianças.- disse André.
- Claro que não! Não devemos aparecer. O Manifesto deixado em Buenos Aires nos identificou, mas eles não nos conhecem. Se a situação muda, podemos nos confundir com os demais.
- Ilusão a sua. - resmungou Conga.
-  Ilusão?
- Severina meteu a cara na janela e foi fotografada; Athos também.
-          Não acredito! Não sabem que não podemos nos expor?
-          Deram até entrevista!
-          Entrevista!? Vá à cabine, Andrada! Acabe com isso! Merda, merda! Se identificam a primeira mulher, encontrar-me é um segundo. Como fizeram isso, meu deus? Não queremos violência! Nem mortes! Muito menos mortes!!!
Onde está o co-piloto Hélio? Quero falar urgente com ele!
-          Está lá fora.
-          Lá fora?!
- Estão dizendo que os sequestradores abriram a guarda. - comentou, nervoso, Conga.
- Abriram a guarda!? Nunca abriremos a guarda.- olhei para André e Andrada.  Seus olhos estavam mudos.
- A situação está preta. O exército está retirando os jornalistas da pista. Estão entrando alguns tanques.
-          Tanques?
-           Tanques de guerra, olhe pela janela.

Lá vinham eles, posicionando-se ao redor, sem nenhuma discrição. Imponentes, sombrios, dominadores.
- Vão invadir o Caravelle? - comentou um passageiro.
- É só uma questão de tempo. - respondeu outro.
- Nada mais de fotos. Nem de chegadas às janelas. Cada qual em seus postos.- pedi a Andrada que ordenasse.
- Não podemos colocar nossas vidas em jogo. Isto é o cúmulo da irresponsabilidade!- completei furiosa.
Entre medo e euforia, uma discreta alegria invadiu os passageiros. Vozes sussurradas podiam agora ser ouvidas.

A tarde caía sobre Lima. Cinzenta, chorona, quase triste. Tenho medo das tardes assim. Frustradas, sem o acariciar dos últimos raios do sol, costumam ser perigosas. Trazem consigo séculos de angústia e miséria. 

Mas Lima é diferente. Tem a força dos deuses Incas, elocubrei.  Assim seria. Ganharíamos o céu qual objeto não identificado, misteriosamente como toda a cultura andina.

 Jazmines en pelo y rosas en la cara
Airosa caminada la flor  de la canela...cantava Chabuca.

A euforia dos primeiros momentos havia passado. O aeroporto deserto de solidariedade, abrigava a repressão, o terror, o silêncio.
O olhar, antes voltado para as mensagens de vitória e paz, se concentrava sorrateiro através de pequenas frestas, atento a cada movimento, a cada gesto. Num piscar de olhos, podíamos ser invadidos.
As negociações haviam parado. Só silêncio e espera. As crianças brincavam no corredor, ora de pique-esconde, ora  atirando-se nas poltronas, ora correndo no curto espaço e caindo nos braços de André.
- Você acha que este passageiro está com dor de barriga? - perguntou André.
- Pode ser... respondi.
- Quando sair do banheiro, vamos ver.
-          André, são pedaços de passaporte, papéis também. Olha aqui! Uma lista com nomes de brasileiros! Para que serve?
-          Não sei, vamos guardar?
-Conga, vá até o assento deste senhor verificar do que se trata.- pediu André.
- A mala diplomática foi rasgada.- voltou Conga com a nova.
-          Mala diplomática!?
-           Alguém emprestou uma faca. Não sei, pois o rasgo é grosseiro. 
-    Chama o Andrada!
- Que fazemos com esta mala?
- Vamos pensar depois. Entregaremos quando chegarmos, ou não sei.- comentou.

De súbito, veio a ansiada resposta.
-          Finalmente, chegaram o gerador e o mecânico chileno que fará funcionar as turbinas. - anunciou contente, o co-piloto. Dentro de poucas horas poderemos partir.
Enquanto não estivéssemos no céu, poderíamos ser invadidos pela polícia. No fundo, todos torciam pela chegada, sãos e salvos, à famosa ilha de Fidel. 

Após 27 horas de terror, quase às 6h da manhã, levantamos vôo com destino a nossa próxima escala:
Panamá.

De todos os  países, o Panamá era, sem dúvida, o mais  temido. Estaríamos em solo americano. FBI, CIA. Passaríamos ilesos? Que surpresa nos reservava a  próxima escala? Cada segundo vivido seria uma vitória, e estas  últimas horas eram decisivas. Estava cansada, muito cansada. Os meninos dormiam novamente. Comecei a chorar. Se chorasse, não dormiria. Não podia dormir. 

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