16.3.14

NESTA TERRA, NESTE INSTANTE - 5a.


-          Vou levar vocês, provisoriamente, para a casa de um companheiro; o tempo para  conseguir um aparelho mais estável.

 Junho 1969

O beco escuro servia de passagem para o barraco. Chovia forte lá fora. A cidade parecia não ter cara. Também, que me importava se ela tinha ou não uma feição própria? Que me importava esta ou aquela outra cidade, vila ou vilarejo? Queria, sim, um pouco de solidão. Um pedacinho de espaço para mim e os meninos. Queria chorar, sem cúmplices. Queria definir um caminho ou pelo menos entender melhor aquele que deveria trilhar. Sei que existem 256 caminhos, mas, não podemos escolher todos ao mesmo tempo.

A chuva insistia em perturbar meu sono. Jamais ouvira tão perto o barulho da chuva caindo no zinco. Estranha sensação de  liberdade. De tempo em tempo, ouvia vozes. Risos, rixas. A passagem  estreita colocava os transeuntes  quase em cima de nós. Pela manhã, chovia. Chovia tanto que extrapolava meu coração. A sábia natureza aliara-se a meu pranto para amenizar  minha dor.  
Chão batido, sala, quarto, cozinha, banheiro numa mesma peça. Limpo bem limpo. José nos atendeu afetuoso. Brincou, conversamos um pouco. Não havia muito o que falar. Mal nos conhecíamos. O silêncio era prolixo.
Durante uma semana choveu. Durante uma semana, nem abrimos a porta.
Como cheguei, saí. Na calada da noite, às escondidas.
Desta feita, para um lindo apartamento, com moradores jovens, alegres, e com um sério problema: a empregada não podia saber de nossa presença.
Até que conseguissem livrar-se dela, teríamos que ficar trancados no quarto. - explicou  Martha.
- Vocês podem sair à  noite. Dar uma volta pela casa, enquanto ela vai para  a escola.  Mário está providenciando para que ela saia de férias. O problema são as aulas. Tentaremos dar um jeito.

Mais estórias, contadas no decorrer do dia. Mais cantigas, sussurradas nos ouvidos, estavam me levando ao desatino. Os pesadelos que desfilavam intermináveis, nas horas de sono, eram mais leves e prazerosos, do que a realidade da vigília. É certo que as crianças eram bem pequenas, dois e três anos. Mas não o suficiente pequenas para dormirem e ouvirem estórias. Não nutria nenhuma esperança de saída. Até então, a cada lugar novo, piores situações.
Por fim, embarcaram a empregada, para visitar os seus pais, sob o pretexto de que precisavam viajar. Fomos libertados das quatro paredes.
Felicidade geral. Respiramos tanto espaço, que caímos esgotados de  liberdade.
Foi quando a campainha tocou. Teriam esquecido a chave?
             - Rapidamente abri a porta.
Diante de mim, um jovem assustado - Martha está?
            - E agora Drummond, que faço com o seu poema? Quem é este homem? De onde ele saiu?
- Sou Welington, irmão da Martha. Você quem é?
-          Mirian.
Entrou, acomodou-se no sofá. Onde está minha irmã? De onde você veio? Martha não disse que tinha visitas. Cheguei hoje, estava no treinamento.
- Você não é de Belô?
- Não. Vim conhecer. Nada mais.  E, você?
- Sou paraquedista. Estou na aeronáutica.
- Aeronáutica?
Neste momento, Eduardo chamou. Eu havia parado na  metade da canção para atender a porta e ele, ainda meio adormecido, reclamou por ela.
- É uma criança?
            - São duas. - respondi
Nessas alturas, melhor a verdade do que colocar tudo a perder.
- Seu marido também está aí?
- Não. Está em Madri, a negócios. Aproveitei  para  vir conhecer  Belo Horizonte.
            -  Estranho, Martha nunca ter falado de vocês... Somos tão apegados!
-   Com toda certeza terá falado, mas não despertou seu interesse e você simplesmente esqueceu.
            - Difícil. Continuo achando estranho... Você não está fugindo da polícia, está?  Minha irmã é meio louca, e pode estar escondendo você.
-          Maluquice! Como você viaja!  De que polícia eu iria fugir? Os mineiros são tão desconfiados, que parecerem que tomaram LSD!

Aquele rapaz perguntava demais. A situação estava ficando complicada e eles não chegavam. Da empregada, tínhamos nos livrado e veio o “projeto” de militar.
- Amanhã vou treinar, saltar de pára- quedas. Tenho que estar descansado. Acho que vou indo.

Se este infeliz comenta que nos viu, estamos fritos. Olhei fixamente para ele, fixei todas as minhas energias em suas pernas, desejando que, ao saltar, sofresse uma fratura, fosse engessado e  me esquecesse.

Naquela noite, dormi com as crianças no carro do Afonso, numa rua deserta. Dias depois, soube da novidade: Wellington quebrara a perna, estava hospitalizado.

Amanhecia, quando chegamos à casa de Afonso. Uma revoada de meninos descia as escadas apressada, todos falando ao mesmo tempo. Uns amarrando os cadarços, outros prendendo os cabelos. Sentaram- se à mesa para um  rápido café da manhã, senão perderiam a escola.
Quanta alegria, quanta vida divisei naqueles olhinhos.  Mara, a mãe linda e suave. Afonso, o paizão. Patrícia, Marina, lindas de morrer.
No almoço, alegria geral. Crianças novas na casa, aquela comida gostosa.
Um feijão daqueles! Colocado bem cedo no fogão, temperado com pedacinhos de toucinho, horas antes do almoço. Coisa da cozinha mineira. - segredou Mara.

Na parte da tarde, apareceu um companheiro com uma novidade que iria até hoje marcar minha vida. Um  disco compacto de música cubana.
- Um companheiro trouxe de Cuba.  É lindo, super revolucionário. Música de protesto. Vamos ouvir!
            -  É perigoso. -  expôs  Mara.
-          Ouviremos no cantinho. No chão, tá bem?
-           Bem baixinho. -  suplicou.
“ Se quebró
la cáscara del viento al sur
y sobre la primera cruz
despierta la verdad”  .....
Fusil contra Fusil...

Abaixados, com o coração em festa, a voz de Silvio Rodriguez, o compositor deste e de muitos séculos, percorreu minhas veias e se escondeu, com tantos outros trovadores, pintores e poetas em um dos  tantos  compartimentos que trago reservado  em meu coração para armazenar todas as minhas alegrias.
Tristezas, jogo-as distraidamente na corrente venosa, para alcançarem  o mais rapidamente a atmosfera e se perderem para sempre na poluição das estradas.


Em poucos dias, estava instalada  em um aparelho, junto com um companheiro que faria de conta ser meu marido: Caio.
Entrava  no adiantado da noite, dormia sem dizer palavra e saía aos primeiros raios do sol. Sempre calado, como chegara.
Os dias aos poucos se acomodavam. Ora vinha um companheiro, ora outro, ocasiões em que aproveitávamos para discutir o futuro de todos e elaborar planos.
Devagar ía participando de novo da organização. Sempre na logística. Minha condição de mãe era uma grande impossibilidade. Fiz desde bolsas de couro, para arrecadar dinheiro, a silenciadores, para serem usados nas ações armadas.
Caio foi se acercando. Passávamos as noites lendo, discutindo política nacional e internacional. Fizemo-nos amigos.  Eduardo foi se apaixonando e, pela primeira vez, falou: papai.
Marcello, sempre arisco, olhava Caio com simpatia, sem deixar de contar os dias em que seu pai sairia da prisão para vir brincar de novo.
Por vezes, corria  para pegá-lo no terraço, cantando a peito aberto, bracinhos erguidos para o céu ...
 Che Guevara não morreu... Lá- rá-rá... Che Guevara não morreu!
- Marcello! Vem cá!  O Che não morreu. Por isto você não precisa estar falando aí fora, tá bem? Senão, o que vão pensar? Que não lemos jornais, não vemos tevê? -  objetava apavorada de que alguém escutasse.
- Aqui ao lado, mora o chefe de polícia de Belo Horizonte. - advertia Caio.
Marcello precisa esquecer isso, pensava.
 
Aliada às frias noites Belo-Horizontinas, estava a incerteza dos dias futuros. Conscientemente, dava-me um tempo, para planejar meu futuro.

A organização estava rachada. Isolada em Minas, não sabia de que lado ficaram meus companheiros. Juarez, Carlos, Rodolfo (o famoso Listz) e outros mais.
Eram da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e a ela unira-se a Var- Palmares; mas no congresso de julho, dividiram-se novamente. De que lado eu ficara? Ninguém me respondia. O contato que eu tinha era com os companheiros que sabiam do meu aparelho. Eram poucos.

Notícias do Fausto, nenhuma. Apenas soubera que estava vivo, preso na PM. Carlos desaparecera naquele sábado de maio. Meses sem nenhuma novidade. Estariam vivos? Saberiam do meu paradeiro? Perguntas sem possibilidade de respostas. Tinha que encontrar uma saída. Cláudia, também da VP,  estivera conosco em julho, e contara-me todas essas novidades. Regressou ao Rio, ou talvez a São Paulo. Nem deus sabe. De Ignez nunca mais ouvi falar, desde nossas longas conversas nas primeiras noites em Belo Horizonte.

Ouvi falar dela muitos anos depois,  quando, corajosamente, atirou-se na frente de um ônibus em Petrópolis, ao ser conduzida para a morte.

Ignez teve, como poucos, a coragem de denunciar o assassinato de alguns companheiros, como Palhano e a traição do Cabo Anselmo.

A cada pergunta, a resposta seca e sem comentários.
-          Temos muitos problemas. - concluíam.
Saberia Juarez desta situação? Onde estariam eles?

O tempo, pendurado nas asas do vento, desaparecia por trás dos dias e meses, sem deixar nenhum rastro de  esperança. Belo Horizonte era perigoso. Cada chofer de táxi, uma ameaça a nossa segurança. Qualquer gesto em falso poderia significar a nossa prisão. Parecia que  todos cooperavam com a polícia!
Enquanto mais alguns ajudavam com informações, outros tantos surgiam dispostos a dar suas vidas pela liberdade.
A cada esquartejamento, novos Tiradentes surgiam de suas montanhas. 

Marcello insistia no retorno do pai. Queria explicações contundentes:
- Por que tá preso, mamãe? Por quê?
- Ele estava trabalhando para que todos os meninos  possam ter comida. Muitas crianças não têm o que comer, não têm cama para dormir!
- Os meninos não têm comida?
- Nem todos. A maioria vive nas ruas, com frio, fome, sem livros para ler como os da mamãe.
- Por que não comem?
- Porque a comida é só para quem tem dinheiro. Ontem não fomos ao mercado comprar comida? Lembra? Compramos biscoitos e frutas. O Edu não estava quase chorando porque estava com fome?
- Tava. Quem não dá dinheiro para eles?
- As pessoas que mandam no Brasil.
- Por quê?
- Porque são muito egoístas e não gostam do Brasil. Gostam de dinheiro. Só de dinheiro. Não gostam nem de seus filhos.
-  Dinheiro não é pra gostar. Eu quero meu pai.
- Sabe, Marcello, estamos em guerra. Nós mesmos estamos aqui, escondidos, porque se o governo nos pega, vamos presos também.
            - Por que a gente queria dar comida?
- Sim.
- E o tio Carlos? Cadê o tio Carlos?
- Não sei, meu anjo. Anda por aí, lutando contra a fome e a miséria.
- Eu quero ele. Eu quero ir pro Rio...
O porquê deu lugar à  dor.  Marcello já pouco comia, chorava durante a noite, dormindo. Até que a febre apareceu. Alta, muito alta.
Médicos, remédios, psicólogos, para chegarmos à conclusão de que seria necessária  a presença  urgente de Carlos.
Carlos era procurado em Minas. Tinha suas fotos estampadas nas  rodoviárias e aeroportos. Como vir a Minas, sem correr perigo? Sua vinda estava fora de cogitação. Meu filho definhava aos poucos. Estórias, atenção extrema, total carinho, todo o meu amor não substituíam a angústia de querer o Fausto de volta, de regressar a casa. Seu corpinho começou a se encher de chagas, menos as mãos e o rosto. Estávamos  perplexos. Como resolver essa situação? Como  salvá-lo? Afonso passava os dias ao seu lado, brincando, dando-lhe carinho. Até barba deixou crescer, para simular a imagem paterna.
Nada demovia aquela criança do trauma da perda sofrida a cada semana, a cada mês, a cada e dia.

Caio viajou ao Rio para localizar Carlos. Regressou abatido. Carlos viajara com Lamarca, sem data de regresso. Quem de nós tinha data de retorno? Quem de nós tinha, naquele momento um porto seguro?
Deixou apenas a notícia: Marcello precisa de você.

Agosto 1969

 Numa manhã gloriosa, com a cara metida na janela, sorrindo matreiro, encontrava-se Carlos.
Os quatro, apertados num só abraço, nos perdemos aos beijos. Desta vez, choramos de tanta felicidade.

Beijou milhões de vezes as bochechas ardentes de Marcello; devagarinho tal qual um anjo, foi amainando aquela dor. Banhando-o com permanganato, secou cuidadoso as feridas.

Aos poucos, Marcello foi se entregando, até alcançar a cumplicidade. Lápis e papel em punho. Croquis, inúmeros croquis. Combinaram a fuga. Fizeram, durante horas, o roteiro. Homens armados. Camburão. Polícia Federal. Avenidas, árvores. Homens em posto de comando, soldados em postos de ataque. Por fim, a fuga e a liberdade.

- Assim será, meu amor. Vou tirar seu pai da cadeia. Vamos para uma casa onde você tenha seu quarto para brincar com o Edu, ir à escola curtir com seu  irmão a alegria que a vida vai te proporcionar. Você só tem que ter paciência. Temos que esperar a hora e o dia certo para a ação,  tá combinado?

Entregou a Marcello um desenho, dobrado, que ele guardou com todo carinho no bolsinho da calça.  Era seu segredo e sua cura.

Naquele dia, a febre baixou repentinamente. Nos dias que se seguiram, três ou quatro dias depois, todas a feridas cicatrizaram. Carlos se despediu, prometendo voltar.

Desde maio, não sabia de nosso paradeiro. No racha, ele, Juarez, Maria do Carmo e os demais ficaram na VP. Eu, sem saber, isolada do mundo e de todos, estava com os da VAR- Palmares – (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares).
- Imagina, não sabia de nada. Por este motivo demoraram tanto a me encontrar. - comentei com Carlos.
- Exatamente.
            -  Fique quieta que eu volto pra tirar você daqui.
Carlos nunca havia falhado, não seria agora. Como Marcello, esperaria tranquila o seu regresso.
Depois da vinda de Carlos, nunca mais falaram nada. As reuniões, antes quase que diárias, foram escasseando. Caio pouco falava. Embora, na clandestinidade da clandestinidade,  meus neurônios sempre estiveram ativos. Sabia pensar.





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