20.3.14

NESTA TERRA, NESTE INSTANTE - 9a. parte

1 de Janeiro de 1970 - Aeroporto de Carrasco -  Montevidéu - Vôo 114 - Dez anos da Revolução Cubana.
  
Marcello e Eduardo correm pelo aeroporto, arregaçando a roupa à altura da cabeça, desenfreados, eufóricos,  arteiros.
Um guarda passa, ora para lá, ora para cá olhando encantado a alegria dos dois,  que um ano de clandestinidade não logrou aplastrar.
- Venham cá, meninos! - seguro os dois pelos braços - Quietos!- Sorrio para o policial que se detém com as travessuras inesperadas de Cell e Edu.
- Vamonos niños, tranquilos. Después ustedes juegan. Ahorita van a entrar en el  avión. - diz o policial.
Estão felizes de  regressar para verem o pai. - expliquei.

Com o olhar, busquei cada companheiro.
-          Passageiros do vôo 114, dirijam-se ao portão de embarque, ouvi em ecos...
Dali para a frente, a sorte. Todos os detalhes haviam sido repassados, exceto o inesperado. André, Severina, Conga e Athos embarcam.

Acompanhada pelo olhar vigilante de Andrada, carregada de bolsas, crianças, passaportes e arma, deixando para trás todo o medo , incerteza e inquietude dos últimos dias, fui a penúltima a entrar.  Andrada, se adiantou à aeromoça e, delicado, ofereceu  sua ajuda:

-          Bolsas e crianças  não combinam!
-           Obrigada! - agradeci.

Sentei, estrategicamente, num dos últimos assentos. A qualquer imprevisto, estaria fora do alcance dos demais passageiros. André sentou-se no banco da frente para me dar cobertura. Conga se acomodou no banco de trás.

Terminei de colocar o cinto de segurança em Eduardo, acertei o de Marcello, apertei o meu e a voz serena da aeromoça desejou-nos uma boa viagem.
- Dentro de uma hora estaremos fazendo escala em Porto Alegre.
 Como escala em Porto Alegre? E  São Paulo?  O vôo era direto para o  Rio de Janeiro. Como agora esta mudança de rota? Falta de passageiros? É normal.

Atentos à decolagem, ansiosos para começarem a viver os anos 70, ninguém notou quando o passageiro estrategicamente  posicionado levantou-se e entrou na cabine do comandante.
O Caravelle ainda ganhava os céus, quando Andrada ordenou a mudança de rota.
- Isto é um sequestro. Mude  a rota para Cuba, comandante.
A  luz vermelha continuava acesa, e a voz de Athos  anunciava, para os passageiros, o sequestro, lendo o manifesto escrito para a ocasião.

Falava das prisões, das torturas, dos companheiros assassinados, da ditadura brasileira.
           - Este sequestro tem dois objetivos: levar para  Cuba os filhos de um companheiro preso e torturado pela ditadura brasileira e reverenciar a Che Guevara.
- ...comemorar a Revolução Cubana. - corrigi baixinho.

Fazia dez anos que Cuba estarrecia o mundo. Pequena, aparentemente frágil, sem recursos naturais, derrubara a ditadura de Fulgêncio Batista e se declarara socialista.
“Se dar ao povo educação e saúde é ser socialista, então somos.”- dissera Fidel Castro, na época da fracassada invasão dos americanos à Bahia dos Porcos - Playa Girón.    

Há dez anos, que o cidadão cubano resistia bravamente para manter sua soberania. Fazia dez anos. O Brasil também podia, imaginei sonhadora.

Todos ouviram espantados. Nenhum comentário. Pouco a pouco, refeitos do susto, um suspiro aqui, um ai do outro lado, uma observação mais à frente, um grito histérico da  senhora, quiçá alheia aos acontecimentos dos últimos tempos.

-          Esta aeronave não tem autonomia de vôo.- contestou o comandante. O Caravelle PP-PDZ, explicou, só pode voar por duas horas. Não comporta mais combustível, e além do mais, está em pane. Voar para Havana, nem pensar.

Conga, o companheiro sulino que entrara no sequestro nos últimos dias de preparação da ação,  conhecedor  de algumas manobras de aviação, foi requisitado à cabine.

- Borges, o co-piloto, alertou sobre os problemas que certamente surgirão.- informou André.
- Não chegaremos a Havana. Vamos parar em Porto Alegre para trocar de nave. - sugeriu Amaral.
- Porto Alegre? Não. Não voltaremos a solo brasileiro. Temos que chegar a Cuba de qualquer maneira sem sair deste avião.- sentenciou Andrada.
- Não vejo saída. Vou falar com a torre de Buenos Aires. Esta aeronave tem que ser reabastecida. Temos problemas legais. Autorização de pouso na Argentina, pagamento de combustível. Temos  burocracias a cumprir. – mencionou Amaral, o comandante do Caravelle.
- Vocês não entenderam? Isto é um sequestro!
            - Entrem em contato com o aeroporto de Buenos Aires, peçam permissão de aterrissagem e expliquem a situação. Eles vão entender. Isto é sério. - concluiu.

Ezeiza – Buenos Aires. 19:00

Trinta minutos depois, aterrizávamos em Ezeiza - Buenos Aires, para abastecer o avião.  O manifesto lido a bordo, deixado com os Tupamaros, chegara às redações dos jornais. Agências internacionais  informavam ao mundo  a notícia de um sequestro num país que escondia sua história aplastada pelas botas militares.

O sequestro tomava um novo rumo. O nome de cada um dos sequestradores havia sido divulgado. A presença das crianças, como parte da ação, também.
De nada valera a decisão de não mencionar meu nome, nem o dos meninos, nem a presença de uma segunda mulher para cobrir a ação, na possibilidade de que algo desse errado, como colocaram Andrada e André, pouco dias antes em Porto Alegre.

Todo o cuidado e cautela, daí por diante, seria pouco. Uma pequena distração, e um passageiro mais afoito poderia pegar uma das crianças e fazê-la de refém. Mudei de poltrona. Coloquei meus dois filhos do lado da janela e me acomodei no corredor. Escondi a arma embaixo da bolsa, e, concentrando-me, pus todas as minhas energias em estado de alerta.         

Um velho casal foram os únicos passageiros autorizados a deixarem o avião. Após duas horas de negociações, deixamos a capital de Gardel,  decolando em direção ao  Chile.

A noite, trazendo em seu cortejo as estrelas, cruzava o hemisfério sul, lenta e preguiçosa. As crianças, disciplinadas a dormir das 7 às 6h, não reclamariam até a manhã.

Nosso plano de comemorar o triunfo da Revolução Cubana, ficou postergado para os anos seguintes. Os passageiros, cansados, terminaram dormindo, enquanto nós, em estado de alerta, aguardávamos  a nova aterrissagem.


Voando, nada poderia nos acontecer. Nunca o céu me parecera tão seguro. A próxima parada era uma incógnita. Teriam condições técnicas para consertar o Caravelle? Abasteceriam sem problemas? Teria a Cruzeiro do Sul autorizado o abastecimento de combustível?

Aeropuerto Cerro Moreno - Antofogasta.  Chile. 0h17m.

Aterrizamos e decolamos em Cerro Moreno, Antofogasta, norte do Chile.

Chile, uma faixa no continente latino americano, beijada pelo Pacífico, coroada pelos Andes, abriga um povo muito especial. O Chile, que “nos ha dado tanto”: de Violeta Parra a Neruda, de Victor Jarra e Miguel Litin, ao heróico presidente Salvador Allende, que anos mais tarde seria assassinado no Palácio de La Moneda, defendendo seu país: “Pagaré con mi vida la libertad de mi pueblo.” 
Eduardo Frei, o então presidente, ordenou que atendessem ao pedido dos  sequestradores: reabastecer o avião.


Assim foi; em apenas 45 minutos, alçamos vôo dos Andes, com destino ao Peru.

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