13.3.14

NESTA TERRA NESTE INSTANTE - parte 2


No chão,  junto à cadeira de Heloísa, uma poça de sangue. Coitada! Diante de tamanho susto, ficara menstruada. 
Abracei sua cabeça, beijei sua fronte.  Saí dali sem olhar para trás: meus neurônios, como numa dança frenética, jogavam com trilhões de informações, enquanto o sistema neuro-vegetativo respondia, estupidamente, com uma desenfreada taquicardia.  Urgia pensar com serenidade.
Tudo estava em jogo.  A organização, meus filhos, amigos que nos frequentavam inocentemente, meus alunos, meus professores, anos de trabalho...
Sozinha, dramaticamente sozinha, peguei o primeiro ônibus que passou.  De ônibus em ônibus, Coelho Neto ia ficando longe.  Tão longe como a dor da separação de um amigo, tão longe como os sonhos da primeira infância, longe como a angústia do irreparável.  Tão perto ontem, tão distante agora, do bairro habitado e cantado por Machado de Assis: seu personagem, Brás Cubas passava pelas minhas lembranças:

...“ Eu trato de anexar  à minha filosofia uma parte dogmática e litúrgica. O humanitismo há de ser  também uma religião, a do futuro, a única verdadeira.”...

Lamartine Babo fazia um delicado verso, naquele cantinho gostoso do “Prato de Barro”.Mesmo sem ser Dirceu, gosto também de Marília”, dissera um dia, enamorado como ele só.  Como seria o início do verso?  Faria uma operação plástica no meu enorme nariz, ou cantaria como Juca Chaves, justificando o que  achava uma feiúra?  Naquele momento, desejei ter Marcello e Eduardo bem perto, na Avenida Brasil, bem ao alcance das minhas mãos...
Madureira ia passando diante dos meus olhos. 

Conseguiria Israel passar para a oitava série?  Seus pais sempre tão preocupados com o filho temporão, criado sem nenhuma defesa, habituados à segurança da minha presença. E as crianças da favela de Acarí? E as do IAPTEC? 
Durante anos, fui uma referência e um amparo. O dentista gratuito, as amostras de vitaminas, distribuídas periodicamente entre todos, as visitas aos casebres insalubres, as bolsas de estudo, a sopa para os famintos, os enterros dos não chegaram a conhecer  os por-de-sol, tudo fazia parte do meu cotidiano... Antônio, tão franzino...  Tão estupidamente pobre. Vanderson está em plena adolescência.  Insuportável, dizem todos.  Muito querido, argumento.
Os adolescentes são fantásticos.  Fortes como o mar, velozes como o vento, sensíveis como os rouxinóis, senhores de tudo e do nada, desbravadores, conquistadores.
Meu deus, como o Rio é grande!  Quantos quilômetros havia percorrido nestes últimos anos!  Pego um ônibus pra Tijuca, parece uma preguiça.  Nunca vi uma preguiça, mas dizem que caminha tão lentamente, que leva dias para subir numa árvore.  Serão feias ou bonitas?  Pouco importa, são preguiças.  Necessito de velocidade, muita velocidade. Retorno à situação real.
- Táxi! Táxi! Botafogo, por favor.
- Onde?
- Botafogo.  Praia de Botafogo.
A baía está linda, aqui não chove.  Em frente, o Pão de Açúcar.  Lindo, imponente.  A esta hora, talvez, apinhado de turistas, deslumbrados com a beleza da cidade. Nem havia percebido o calor que faz.  Que bom seria uma praia!  Adoro praia e pimenta!
- Aqui, por favor.  Em frente ao cinema.
Cruzo a avenida rapidamente. Se faz tarde. Outro percurso.
- Táxi!!!  Laranjeiras, por favor.  Rua General Glicério.
Quando me dei conta, estava trocando de roupa. Mamadeiras, fraldas, leite, roupinhas, sapatinhos, tudo enfiado desordenadamente dentro da bolsa.
- Estou indo embora, ouviu, Dona Leontina?
- Pra onde? - perguntou .
Quase correndo, chego à calçada com Marcello e Eduardo nos braços.  Dois e três aninhos de vivência.  Marcello é esperto, muito vivo, entende tudo, menos este corre-corre. Eduardo sorri, adora uma rua.
Dona Leontina olha assustada, sem entender nada.
- Seguramente é briga de marido. - parece me dizer.
- Feche bem antes de sair.  Não esqueça nada aberto.  O gás, a luz...
- Sim, pode deixar.
- Ligue antes de vir amanhã. Se o Fausto aparecer, diga que fui embora, está bem?
A pobre, amedrontada, balançava a cabeça num perplexo sim.
Como num passe de mágica, surge Carlos. Nosso querido e adorado companheiro. Há um ano entrara na clandestinidade, e viera morar conosco. Um mineiro com jeito de Severino, responsável, alegre, brincalhão, adorado pelas crianças, paparicado por Dona Leontina, companheiro ímpar pela vida afora, faz parte do grupo dos imprescindíveis.  Tantas outras vezes, incluindo o presente, Carlos apareceria nos momentos mais críticos, para vivê-los ou nos tirar deles.
 As palavras deram lugar ao silêncio.  Entrei no fusquinha ainda cheirando à fábrica quando o porteiro, ofegante, disparou:-
- Seu Carlos!  Seu Carlos!  Por favor, preciso lhe falar... o relógio da rifa saiu para o senhor! Espere que vou pegá-lo.
- Não precisa, Seu José.  Pego depois, mais tarde, está bem assim?
- Não esqueça, ele toca aquela musiquinha crássica  do Shube.
- Não vou esquecer não, seu José.
Acho que o Carlos esqueceu, sim, o famoso relógio de mesa que tocava a serenata de Shubert. Nunca mais falamos dele. 
Quatro quarteirões depois, Carlos perguntou timidamente:
- Que aconteceu?
- Pegaram o mimeógrafo e foram me prender.
- Como?
-Pegaram o mimeógrafo na casa do Liszt em Niterói.
- Mas, esse aparelho caiu em novembro.  Estamos em março.  Estranho, não!?
- Muito.  Se não fosse aquele recibo de venda, que inventamos, agora estaria frita.
- Você é uma guria de sorte.  Muita sorte. – concluiu, acariciando meu rosto com ternura.
- Pra onde vamos?  As crianças precisam comer, tomar banho e dormir.
- Vamos localizar o Fausto, e decidiremos para onde ir.
Queria chorar.  Chorar tudo.  Passado, presente, futuro. Pelas coisas alegres, pelas mais tristes.  Chorar de amor, de ódio, de ternura, de paixão.  De impotência, de força, de saudade, de presença.  Chorar.
Não podia.  Marcello e Eduardo sequer deveriam sentir qualquer diferença.  A mudança de fato já seria forte demais.  Os berços, os brinquedos, a comidinha na hora certa.  O silêncio para um sono tranquilo.  A higiene que evitaria doenças, até agora ausentes de suas vidas.  Não.  Não podia derramar uma lágrima, nem que fosse por um bocejo.  Não tinha este direito.  Eles deveriam passar incólumes por tudo. Um não para as doenças, para os sofrimentos.  Um não para o não.  O não seria a última palavra que eles aprenderiam, se dependesse de mim.
Até agora tinha funcionado perfeitamente.  As primeiras palavras tinham sido “ áagguua , poommbo”.  Duas expressões de liberdade.  Não.  Faria qualquer coisa para não apagar aqueles sorrisos.
- Temos que sair do Rio imediatamente.
- Vamos embora!  Vamos para Angustura -  lembrou Carlos.  Sua irmã está lá.  Com certeza, vai nos ajudar nestes primeiros dias.
 Angustura, pequena e linda vila centenária, gloriosa no auge do cultivo do café, encravada num pedaço mágico de Minas.  Cenário da minha primeira perda, dura, sofrida por toda a vida -  pai e mãe de uma única vez.  Um para a morte... outro para a vida... 

Palco do meu primeiro toque de mãos me arrepiando toda, despertando-me no roçar dos dedos, o primeiro amor; das travessuras, da descoberta das desigualdades e mentiras, dos falsos milagres para cura da leucemia.... Lugar das corridas a cavalo, dos banhos de rio, das rosas verdes, do racismo tirando vidas...

Aldeia das preces para os pracinhas na Itália, lutando contra o nazismo; dos mendigos que todos os sábados chegavam ao pátio de minha avó em busca de um prato de comida, despertando-me para as injustiças sociais..

Referência da vovó amada para todo o sempre. Falante, rechonchuda, sábia.
- Você parece com seu pai, sabia -  resmungava.   Sempre dando trela pra  Sá Lídia e Biana, essas mendigas piolhentas e imundas.
- Não se case com este rapaz, minha filha!  Ele não a fará feliz, dissera de uma feita, entre um lapso e outro de sua esclerose avançada.  

- Pronto, está resolvido.  Lá é calmo, as crianças gostam dela e  não vão sofrer tanto, você não acha?
Nada definitivo.  Tudo passageiro.  Uma semana.  Dez dias, talvez.  Nada mais que dez dias.  Você vai ver - falava Carlos, sem parar .
Logo, logo, arranjamos tudo.  Logo.  Logo tudo volta ao normal.
Carlos falava e falava, atropelando as palavras, enquanto lágrimas teimosas umedeciam o bolso da sua camisa.
Era noite quando deixamos a Rio-Bahia, para percorrer os 8 km que nos levam à vila.
Helenice olhou sem entender a visita.  Meio da semana. Carlos e as crianças.  Sem aviso.  Sem chamadas.  Sem respostas, carregamos os pimpolhos nos braços. Entramos pela primeira vez,  sorrateiramente, na centenária casa.   Nos abraçamos e decidimos que assim seria.  Sem perguntas, sem respostas.  Em silêncio tinha que ser.
Bem pronto viria buscá-los, juro que viria.  No regresso, chorei. 
A madrugada esbarrava no amanhecer quando regressamos ao Rio.  Muitas, tantas madrugadas faríamos esse caminho de ida e volta, para vê-los dormindo, esparramados na cama de casal.  Uma perna aqui, um braço jogado na carinha do outro.  A respiração suave e doce.  Um sorriso furtivo, anunciando um sonho feliz, eram alavancas para suportar mais um dia de não saber quando, nem onde.
 Quinze dias se passaram entre as estradas de Minas e as frias madrugadas de Santa Teresa.  O vestido verde de veludo, colocado às pressas na saída, continuava sendo o único disponível, a calcinha lavada pelas madrugadas, muitas vezes colocada ainda úmida pela manhã, marcavam discretas a gravidade da situação.
De dia, reuniões à procura de definições e saídas;  caminhadas sem rumo, um único sanduíche para três, outras vezes para quatro. De noite, um porão cheio de morcegos; na outra noite, um frio quarto, com a cama pequena demais para dois. 

Copacabana, cantada em verso e prosa, eternizada na canção, é uma menina ousada de cabelos ao vento durante a estada do sol, mas mulher misteriosa no burburinho da noite.

As ondas beijam suas areias, num vai e vem infinito de carícias.  Se os dias são tristes, seus beijos são agressivos; se alegres, cheios de luz, manhosamente seus lábios deslizam aos pés dos banhistas fascinados com o corpo moreno da garota assanhada. Na calçada, eternizada nas onduladas pedrinhas  portuguesas,  desfilam pescoços apinhados de jóias raras ou falsas, não importa, enquanto os  velhinhos, seus charmosos aposentados, caminham ao balanço da eterna melodia que vem do mar.

Quem, se lembra da Teinha, um biscuit de cabelos “a la Bardot”, amiga do Erasmo Carlos?  Faz anos não ouço diminutivo igual...  Ela, sempre animada para festas e noitadas na Ladeira dos Tabajaras.

Copacabana, perfeita para que o Nelson Cavaquinho se perca por seus inúmeros bares. Como encontrá-lo, para fazer aquela matiné no Teatro Ginástico?
“Demanda”,  de uma obra teatral de proposta política, havia virado uma peça musical.  Não permaneceria em cartaz. Nem o charme de Nelson, nem o violão celestial de Rosinha de Valença, nem e a novidade do MPB4 seriam suficientes para garantir uma peça totalmente mutilada pela censura.
- Corta os Beatles, o Vaticano também.  Corta a bomba de Hiroshima.  Corta.  Corta esta fala do “pijama vermelho do Nelson”.  Corta, corta.  Fausto e Marilia  também. - esbravejou o censor.
- É o nome dos autores, nada tem a ver com a peça.- defendeu o diretor.
- Corta, corta, já disse.
Nelson está perdido desde a madrugada.  Não voltou.
- Foi para o boteco da Rua Paula Freitas. - afirmou o boêmio, procurando o caminho de casa.
- Ih!  Saiu faz tempo.  Deve andar pela Rua Toneleros, com certeza. - resmungou o dono do bar.
Uma nota perdida no ar indicava o caminho.  Sentado no meio fio cantarolando, sempre bem acompanhado, encontrei Nelson.
- E aí, Nelson, onde você se meteu durante toda a noite?
- Tô fazendo uma música pro seu filho.
- Mas, nem estou grávida!
- Não importa, assim é melhor.  Ele nasce cantando e tomando umas biritas que nem eu.
Incorrigível, esse Nelson.  Lindo.  Feliz como criança feliz.  Todo ternura.  Como repreendê-lo?  Impossível.  Possível é eternamente amá-lo... 
-                          Você acredita que pode enfrentar um encontro com os militares? – perguntou, de súbito, Juarez . Se não puder tudo bem. Encontraremos outra saída. Fazemos assim: você se apresenta.  Caso inédito.  Os militares se assustam.  Você explica a venda do mimeográfo.  Diz que não tem nada a ver com tudo isso.- completou. Eu acredito em você, sempre foi muito convincente.  Eles acreditaram também. Vocês retornam à casa; tem muita gente na clandestinidade se pudermos evitar, melhor para todos.  Tem as crianças, a escola, muita coisa em jogo.  Você pode.  Tenho certeza.  Mas a decisão é sua. – sentenciou. Moacyr está morto.  Foi executado em Minas Gerais.   Outros companheiros foram presos, estão sendo brutalmente torturados. A situação está difícil, mas com a sua habilidade e inteligência podemos sair dessa.

Difícil um não. Era pegar ou pegar.  Ou o depoimento voluntário, ou o depoimento involuntário.  Cedo ou tarde, eles colocariam aos mãos em mim.  Sempre fui medrosa, muito medrosa, mas não para enfrentar a vida. Era, tão sinceramente questão de viver.
- Sim, vou.  Pode contar.  Vou e volto.
- Se o pior acontecer, quero dizer, se ficar presa, entregue o lugar do encontro comigo. Vou te  buscar, custe o que custar.  Praça José de Alencar, duas da madrugada, todas as terças feiras. - completou Juarez.
-  Tenho certeza que sim.
Juarez Guimarães, militante da Colina (Comando de Libertação Nacional) entrou uma manhã nos nossos dias, em 1966,   nos primeiros em que Marcello, devagarinho foi se acomodando dentro de mim, esperando amadurecer para sair por aí, vivendo.  
Juarez chegou num dos momentos mais lindos da vida. Estava totalmente aberta para construir um mundo novo, o mesmo em que, bem pronto, habitaria meu primeiro filho.
Desde 1962, participava de reuniões políticas de um grupo de estudantes da Estelita Lins. Marx e Engels eram os nossos mestres; Lenin, o líder maior, mas foi em Stalin que, naquela época, me descobri.
- Stalin tem o dom de descomplicar o entendimento sobre luta de classes, professava Mauro, nas tardes de discussão calorosa.
Juarez era sociólogo, conhecia como poucos os problemas brasileiros. Seu caráter primava pela firmeza, serenidade, garra, total falta de machismo, praticidade, crença inabalável no homem. Determinado nas colocações de ordem mais complexas; isso fazia dele um líder ímpar no projeto de um Brasil novo.

O mundo explodia. A Apollo XI descia na lua, as fotos de Biafra passavam a frequentar as páginas dos jornais, denunciando a morte, por fome, de milhares de pessoas. 
Os Beatles, os Rolling Stones, João Gilberto, Hendrix, Pink Floyd, transformavam o cenário musical numa revolução de notas, acordes e comportamento. Os Doces Baianos  sacudiam a apatia nacional, os estudantes deixavam suas carteiras e saiam à rua. Janete Clair  construía a fábrica de sonhos, Barnard, o cirugião sul-africano,  realizava o primeiro transplante do coração, mas Che havia sido vilmente assassinado na Bolívia; Martin Luther King, também.

Juarez fazia parte do exército que vai na frente construindo o futuro.
Durante quatro anos, convivemos com ele. Por quatro anos, pude comprovar sua honestidade, seu amor sem fronteiras. Com ele, amadureci minhas convicções de contribuir para um mundo melhor. Um mundo de paz e solidariedade. Podia-se confiar nele. Eu confiava, sem restrições.

Decisões drásticas, irreversíveis, eu as conhecia de cor. Atravessar o túnel escuro não constituía uma novidade; havia aprendido que a vontade se sobrepõe a qualquer obstáculo, que detrás de cada montanha existe um vale iluminado. Se a rocha nos parece gigante, sempre há a possibilidade de contorná-la: a saída pode estar distante, mas um pouquinho mais e ela está ali.
- Amanhã, o que você acha? Perguntou Juarez.
- Tudo bem. Amanhã na primeira hora da manhã. Fausto viaja para Minas para ter um álibi?
- Combinado.
Sua mão posou tranquila e forte sobre meus ombros.
- Estarei esperando. sorriu

Durante toda a madrugada, estive atenta à vida. Tentava conciliar o sono, precisava descansar. Uma noite mal dormida seria fatal para a paz interior e a defesa externa.
Passeei pelos campos vangognianos, repletos de girassóis; entrei na “Tabacaria”, mergulhei em Dante e discuti com Göethe. Entre um cochilo e outro, trilhões de bolas corriam desenfreadamente para o horizonte, sendo tragadas violentamente. Uma delas segurava ferozmente outras duas, numa luta desesperada para não ser engolida pela bola mestra, que atraía todas para a linha divisória da imaginação. A medida que as três se aproximavam do final, a força era cada vez maior. Frear, frear. Mais força, mais força. Numa batalha feroz, as três bolas estancaram, lado a lado. Juntas, leves, fortes...
Despertei. Amanhecia. 
Levantei. Precisava parecer uma inocente elegante. Pintei os olhos com sombra verde, caprichei no rímel, nos lábios um batom  avermelhado, o cabelos comportado. Vesti a roupa comprada no dia anterior, um delicado vestido branco de bolas verdes. Adoro tecidos de petit pois. Ficou bem. Muito bem. Leve, fagueira. Me lembrei de Vinícius de Moraes:
“...Ah. que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente.


Com seu sorriso e suas tramas .Que ela surja, não venha;
Parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida...”

Sempre quis um mundo melhor, em todos os sentidos, companheiras vaidosas, companheiros garbosos.
A liberdade é bonita, cheirosa, fresca, leve, amorosa. A prisão é triste, fedorenta, obscura, cheia de olheiras. Para lutar por um mundo melhor é preciso estar bem por dentro e por fora, e estar profundamente apaixonada pela vida. Assim me sentia linda, linda e, principalmente, poderosa.

Peguei a barca para Niterói  e surpreendi: entrei ao DEOPS. Como o combinado cheguei sem ser esperada.

- Por favor, seus documentos.- berrou o sentinela.
- Estão me esperando.
- Quem está esperando a Sra?.
- O responsável pelo mimeógrafo, que foi apreendido numa casa aqui  em Niterói.         
- O quê? - seus olhos arregalaram estupefatos de horror. Que disse? -  gaguejou apavorado.
- Como lhe disse. Não o conheço, nem sei seu nome. Sim sei, que estão me esperando.
- Um momento. Um momento, por favor.
Segundos depois,  estava diante de um delegado.
- Doutor, esta é a senhora do tal do mimeógrafo.
Nunca mais lembrei seu nome. Melhor assim; o feio e o mal são para serem definitivamente esquecidos. Todos os nomes, os rostos daqueles senhores, nunca, jamais serão recordados. Contudo, um único me chamou a atenção; o major Matt.  Matt, não me soou de origem latino-americana.
Alto, louro, de olhos azuis, fala pausada, como que tentando articular as palavras com clareza, foi o primeiro a falar. 
- Então, a senhora é a do mimeógrafo? Necessitamos de seu depoimento.
- Para isso estou aqui. - respondi com firmeza.
- Por aqui, por favor.

Duas mesas, seis cadeiras, uma velha máquina de escrever, um escrevente circunspecto, quatro caras frias, sisudas, secas, indiferentes, olhando com superioridade, por cima dos meus ombros, completavam o cenário. Quantas cenas ficaram gravadas naquelas paredes! De tortura, de pânico, de medo e de morte. Quanto terror! Meus órgãos tremiam, sentia forte a presença da dor.
Cuidado menina, sussurrava meu coração. Atenção garota, alertavam meus sentidos.
- Então quer dizer que a senhora vendeu o mimeógrafo? Para quem?
Uma certa satisfação invadiu-me toda, daqui para frente era só criar uma linda e estúpida estória. A pergunta veio certa, segura, exatamente eu como esperava.
- Vendi, sim. Estava ocupando muito espaço.
- Tudo bem, mas para quem?
- Não tenho a mínima idéia. ..... continua

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